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Sábado, 01 de Novembro de 2014
2008-06-01 15:48
Arseniy Lavrentiev, nadador do Algés, apurado para os Jogos Olímpicos

O nadador do Sport Algés e Dafundo, de origem ucraniana, Arseniy Lavrentiev, volta a fazer história na natação portuguesa ao purar-se hoje para os Jogos Olímpicos, na prova de 10 quilómetros da disciplina de Águas Abertasdno Test Event, realizado em Pequim.

Depois de Daniela Inácio ter garantido ontem a presença portuguesa na estreia olímpica da disciplina, o nadador algesiano voltou hoje a colocar Portugal no grupo restrito dos 25 melhores nadadores do Mundo. Apenas dez nações conseguiram a proeza de ter representantes masculinos e femininos em Pequim. 

O feito de Lavrentiev é ainda mais extraordinário porque foi apenas a sua terceira participação de sempre em provas internacionais, tendo as duas primeiras ocorrido na Taça do Mundo de Setúbal, em 2006 (14.º) e 2007 (4.º). Era seguramente o nadador menos experiente dos 29 que competiram no Torneio de Qualificação Olímpica.

A prova foi verdadeiramente disputada ao sprint, com os 15 primeiros a cortarem a meta no mesmo minuto. O fundista luso acabou os 10 quilómetros em 1:59:54.1, a 40 segundos do vencedor, o búlgaro Petar Stoychev (1:59.13.8). Em segundo ficou o húngaro Csaba Gercsak (1:59.17.7) e em 3.º o checo Rostilav Vitek.

A competição foi disputada em condições dificílimas, com um vento muito forte, de tal forma que a prova parecia que estava a ser realizada no mar. As dificuldades eram maiores no 1.º quarto do rectângulo, porque os nadadores estavam contra o vento.

Muito dura em termos físicos, as circunstâncias não permitiram fugas e grupo manteve-se sempre compacto até à 3.ª volta, porque ninguém quis assumir o comando. O ucraniano Igor Chervynskiy decidiu pegar na prova e passou a liderar, pagando caro a ousadia, dado que perdeu o lugar de apuramento precisamente para Arseniy.

O português esteve sempre inserido no meio do pelotão, fez três abastecimentos sem perder terreno e na 3.ª volta chegou-se à frente, passando para o 6.º ou 7.º lugar. Na última volta quase todos os nadadores tentaram arrancar e o búlgaro Stoychev passou a impor o ritmo, altura em que Lavrentiev desceu alguns lugares. Nos 1200 metros finais foi ultrapassado pelo israelita Michael Dimitriev, mas conseguiu superar o seu ex-compatriotra Igor Chervynskiy e garantir um lugar na história da natação portuguesa.

Arseniy Lavrentiev está radicado em Portugal há três anos e adquiriu no dia 26 de Maio o direito de representar as cores nacionais, data em que completou 12 meses depois da sua última internacionalização pela Ucrânia. Nascido em Chelyabinsk, na antiga União Soviética, aos três anos de idade adquiriu a nacionalidade ucraniana depois da separação dos países de Leste. Veio para Portugal porque os pais já cá estavam há cinco anos, a mãe a trabalhar como pediatra e o pai como engenheiro. Tinha ficado na Ucrânia para acabar o curso de Estudos Germânicos e passou a representar o Sport Algés e Dafundo.

Começou a praticar natação com cinco anos, porque teve um problema nas costas, e a mãe sabia que a Ucrânia e a primeira prova de Águas Abertas que nadou foi o 4.º Challenge realizado em Castelo de Bode, em Setembro de 2006. Venceu a prova ao sprint, com nove segundos de vantagem sobre o segundo classificado. A vocação para a disciplina ficou patente ao vencer o Circuito Nacional nesse ano, com mais uma vitória (Travessia Bessone Bastos em Oeiras) um 3.º terceiro lugar (Travesia dos Templários) e o 14.º posto na estreia em provas internacionais, na I Taça do Mundo realizada em Portugal.

Em 2007 repetiu a vitória no Circuito, apesar de só ter participado em quatro das cinco etapas e ter ficado em 5.º no Chalenge. As vitórias nas Travesias Bessone Basto, em Oeiras, do Sado e o 3.º lugar na Travessia dos Templários, aliado ao 4.º lugar na Taça do Mundo, permitiram-lhe o triunfo final.

Arseniy Lavrentiev: “Consegui realizar os meus maiores sonhos”

Arseniy Lavrentiev não conseguia esconder a felicidade pela concretização do objectivo: “Ainda nem sei bem o que sinto! Em cinco dias consegui realizar os meus dois maiores sonhos, representar Portugal e ir aos Jogos Olímpicos.”

“Estou muito feliz pelo apuramento e por ser português”, acrescentou. A opção pela nacionalidade foi motivada pelo desejo de”ficar cá para sempre. Gostei de Portugal desde o primeiro dia, gosto das pessoas e do país.”

O nadador está a fazer treino específico para as Águas Abertas “há cinco meses e nado 16 quilómetros por dia”. O gosto pela disciplina é inegável: “As provas são sempre diferentes, as condições mudam – há provas com corrente ou paradas, com água mais quente ou mais fria, com distâncias variada”.

Nuno Dias: “Dia de hoje é uma vitória para Portugal”

O treinador nacional de Águas Abertas referiu que “pusemos a fasquia bastante alta quando trouxemos a Taça do Mundo para Portugal e investimos na modalidade. Sonhámos que conseguíamos ter um nadador em Pequim, apesar de sabermos que era difícil, e o dia de hoje é uma vitória para Portugal.”

“A aposta na disciplina e todo o investimento realizado foi largamente compensado pelo momento histórico de conseguir colocar dois nadadores nos Jogos Olímpicos”, afirmou Nuno Dias.

“Sabíamos que havia nadadores que partilhavam a paixão por Águas Abertas e que se iriam dedicar à modalidade. Aquilo que conquistámos hoje permite-nos ser mais ambiciosos, trabalhar com mais afinco e ajudar a disciplina, que passou de emergente a uma certeza”, disse.

O responsável técnico revelou sentir-se “amplamente satisfeito com a entrega, o espírito de sacrifício e a determinação férrea que os dois nadadores revelaram, que lutaram sempre, até ao fim, e mesmo nos momentos mais difíceis nunca abdicaram do sonho.”

Paulo Frischknecht: “O futuro é dos que sonham e trabalham”

O presidente da Federação Portuguesa de Natação (FPN), Paulo Frischknecht, afirmou que “é um orgulho tremendo para a FPN, no conjunto das 202 nações filiadas na FINA, ser um dos pouquíssimos países que conseguem colocar nadadores nos Jogos Olímpicos, pertencer ao lote dos 25 melhores do Mundo, e dentro desses países ser um dos que consegue ter representantes de ambos os sexos.”

O dirigente acrescentou que “é também um orgulho sentir a recompensa que atletas como a Daniela e o Arseniy constituem, bem como alguns outros que em Portugal apoiaram esta aposta, reforçando o exemplo e a realidade que as Águas Abertas hoje são para as outras disciplinas aquáticas. Nesta hora de jubilo, a Federação não esquece a firmeza do Departamento Técnico na defesa das suas convicções mais profundas, e por isso dos superiores interesse nacionais, cujo resultado está à vista de todos os aficionados da natação portuguesa e de cujo grupo de dez nadadores já qualificados para o Jogos a FPN espera tudo.”

“A aposta está ganha, mas o futuro não é apenas dos que sonham, é dos que sonham e trabalham”, finalizou.

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